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A Ascensão do Spanglish

 MOACYR SCLIAR

COLUNISTA DA FOLHA

 

 

Ilan Stavans é um homem ainda jovem, mas o seu currículo impressiona pelo tamanho e pela qualidade. Ex‑professor da Universidade Columbia e atual professor de cultura latino-americana no prestigioso Amherst College, em Massachusetts, Stavans é autor de várias obras, entre elas o best‑seller "The Hispanic Condition" (A Condição Hispânica, 1995, Harper) e ''On Borrowed Words" (Sobre Palavras Emprestadas, 2001, Penguin).

 

Sua ficção inclui "The Disappearance ‑ A Novella and Stories" (O Desaparecimento ‑ uma Novela e Contos, 2006; desses contos, um foi adaptado para o cinema ["Morirse Está en Hebreo". Produção mexicana]). A editora Routledge publicou uma antologia de sua obra intitulada “The Essential Ilan Stavans" (2000). Seu último livro, "On Love", está sendo lançado neste ano pela Yale University Press.

 

Novo Octavio Paz

O "New York Times" o classifica como o mais influente representante da cultura hispânica nos EUA e o "San Francisco Chronicle" o vê como "o Octavio Paz contemporâneo"  ‑ o que se explica pela própria trajetória de Stavans.

 

Descendente de imigrantes judeus da Europa Oriental que se fixaram no México, mudou‑se para os EUA e se tornou o elo vivo entre as duas culturas.

 

Interessou‑se particularmente pelo spanglish, o idioma híbrido que está se tornando uma espécie de segunda língua nos EUA, falado por milhões de imigrantes mexicanos e de outros países da América Central e América do Sul e do qual já coletou mais de 6.000 termos.

 

"O spanglish não é somente um fenômeno lingüístico, é uma revolução cultural que afeta profundamente as Américas", diz Stavans.

 

O spanglish permeia todos os ramos da cultura, a literatura, a música, a educação, a política, e isso há várias gerações: a imigração mexicana para os EUA data de pelo menos 1848, quando foi firmado um tratado permitindo a entrada de pessoas vindas do México (coisa que agora está sendo rejeitada).

 

Resulta daí uma intensa polêmica entre os partidários da assimilação cultural, que vêem no spanglish um caminho para tal, e os puristas de ambos os idiomas, o inglês e o espanhol, que falam na "verborréia dos ignorantes”.

 

De outra parte, existe no público americano um grande interesse pela obra de escritores de origem latina nascidos nos EUA, como Julia Alvarez [de "Antes da Liberdade", Cia. Das Letras], Rudolfo Anaya [de "Albuquerque", University of New Mexico] e Cristina Garcia [de "Dreaming in Cuban", Sonhar em Cubano, ed. Ballantine].

 

Esse interesse contrasta com o relativo abandono em que se encontra a literatura latino-americana depois do boom dos anos 1960 e 1970.

 

A propósito, Ilan Stavans está traduzindo para o spanglish o "Dom Quixote", de Cervantes. A primeira frase, que em espanhol é "En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor" e, em português (trad. de Carlos Nougué e José Luis Sanchez, ed. Record), "num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar‑me, não há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em lanceiro, adarga antiga, rocim magro e cão corredor".

 

Em spanglish, fica: "En um placete de La Mancha of which nombre no quiero remembrearme, vivía, not so long ago, uno de esos gentlemen who always tienen una lanza in the rack, una buckler antigua, a skinny caballo y un greyhound para el chase".

 

Não é impossível, diz Ilan Stavans, que algo semelhante ocorra com a crescente diáspora brasileira nos EUA, com o surgimento de um “portinglês” semelhante ao “portunhol”.

 

Ou seja, a globalização está de fato mudando a vida das pessoas, e isso se traduz no surgimento de novos idiomas ‑ e de novas culturas.

 

Folha de São Paulo

Caderno MAIS - 18 de fevereiro de 2007