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A tradução como obra de arte

 

Fora daqui, o FMI!

CALMA. LEITOR. Não pense que enlouqueci. O título de hoje tem a sua razão de ser.

 

Sempre escrevi esta coluna para o leitor brasileiro, só o brasileiro. Muito raramente, aparecia um leitor estrangeiro extraviado por aqui - fazendo seus comentários, geralmente despropositados. É normal. As dificuldades de comunicação já são grandes entre pessoas da mesma língua materna! Estrangeiro bóia mesmo.

Pois bem. Aqui no FMI existe um setor de tradução bastante eficiente e ativo. Às vezes, o Departamento de Relações Externas toma a iniciativa de pedir a tradução, para o inglês, dos meus artigos. Vários deles acabam no sistema interno de notícias da instituição. Não reclamo, claro. Fico até muito satisfeito. Por outro lado, fico também com uma sensação um pouco estranha de que estrangeiros estão bisbilhotando o meu diálogo, estritamente particular, com o leitor brasileiro, mas há dificuldades, algumas cômicas. Exemplo: como traduzir “turma da bufunfa”? Já tentaram “moneyed classes” - classes endinheiradas. Não é a mesma coisa. “Turma” e principalmente “bufunfa” são palavras que resvalam para o deboche e carregam conotações ambivalentes, duvidosas. Qual será a etimologia de “bufunfa”? Talvez seja de origem africana, o que explicaria, diga-se de passagem, a reação um pouco violenta de alguns bufunfeiros brasileiros a artigos que publiquei nesta coluna.

Mais difícil ainda é traduzir os “arrancos triunfais de cachorro atropelado” do Nelson Rodrigues. Você não faz idéia, leitor, do que isso vira em inglês. Certa vez colocaram: “yelping up and down in indignation like a puppy that’s been stepped upon”! Outra tentativa: “yelping in triumph as did Nelson Rodrigues’s puppy upon being run over”! O que será que passa pela cabeça de quem lê essas barbaridades? É um pouco constrangedor, mas o divertimento supera o embaraço.

Com a crescente comunicação internacional, esse tipo de problema será cada vez mais comum - mesmo para economistas e escritores mambembes como eu. Como tratar, por exemplo, coloquialismos, referências locais, jogos de palavras, frases de efeito? São artifícios que dão sabor ao texto, mas podem se perder na tradução, por melhor que ela seja.

Quando se faz a conversão para a língua franca do mundo atual - o inglês -, muito se perde, irremediavelmente. Mas a língua inglesa tem, é óbvio, suas riquezas e singularidades. E o problema existe também para os escritores norte-americanos ou ingleses que escrevem para uma audiência internacional e têm seus textos traduzidos para vários idiomas.

Gosto muito do romancista inglês, de origem japonesa, Kazuo Ishiguro (autor do livro que deu origem ao longa-metragem “Os Vestígios do Dia”, com Anthony Hopkins e Emma Thompson). Li recentemente uma coletânea das suas entrevistas sobre literatura em que ele se debate, nem sempre de maneira muito feliz, com o problema da comunicação simultânea com leitores de várias nacionalidades.

Diz Ishiguro (minha tradução): “Com a homogeneização da literatura, algo muito crucial e vital desaparece: algumas das grandes energias que vêm do conhecimento que alguém pode ter das suas circunstâncias locais, da língua que é usada na sua própria cultura”. E mesmo assim, em outra entrevista, Ishiguro confessa que se sente obrigado a perguntar a si mesmo: “Essa frase tem substância? (...) Ela sobrevive à tradução?”. Quando escreve, ele sente ter por cima do ombro um leitor estrangeiro imaginário - um leitor exigente, que pode ter uma influência inibidora e paralisante.

 

 Por isso, do canto modesto desta coluna, repito: “Fora daqui. o FMI!”.

 

 

Folha de S.Paulo, 5 de Junho de 2008

  PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna, Diretor Executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).