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A tradução como obra de arte

 

A tradução como obra de arte

Ao jantar em São Paulo com María Kodama, a viúva de Jorge Luis Borges, o coordenador da equipe de tradutores das Obras Completas do escritor, Jorge Schwartz, hesitou um minuto antes de estender-lhe um pequeno maço de folhas de papel com anotações. Ele temia soar indelicado. Eram seis páginas com erros garimpados pela equipe de Schwartz na edição espanhola das Obras, base de todas as outras edições. A lista de erros abarcava desde problemas tipográficos a falhas de revisão, mas incluía também lapsos do próprio Borges. "Em certa passagem ele escreve 'Veneza' quando claramente quer dizer 'Florença'", afirma o também argentino Schwartz. A viúva recebeu muito bem as correções.

Borges faria 100 anos no dia 24 de agosto. Talvez a comemoração mais digna deste centenário seja o lançamento da edição brasileira do terceiro volume de suas Obras Completas, que Jorge Schwartz considera "mais fidedigna que a própria edição argentina". Trata-se, de fato, de um trabalho exemplar - o primeiro volume recebeu o Prêmio Jabuti de tradução no ano passado. "Isto aqui é meu serviço militar", diz Schwartz. "Decidi mostrar ao público brasileiro o Borges correto."

Paixão e afinidade com a escrita, além do conhecimento profundo das duas línguas, são motores essenciais para a tradução bem-feita. No caso de Borges, não basta conhecer o espanhol, pois o escritor é acima de tudo argentino. Otrabalho minucioso da equipe de Schwartz incluiu alguns mergulhos ocasionais na topografia das ruas de Buenos Aires. "Descobrimos, por exemplo, que uma certa Rua da Piedade que aparece num dos textos na verdade não existe, foi invenção do escritor", diz o coordenador.

Erros de tradução ganham, às vezes, uma dimensão além do papel. Sigmund Freud acabou levando a paternidade por certos termos que nunca inventou: a palavra "subconsciente", que aparece em suas obras e virou clichê extrapsicanalítico, simplesmente não existe. Freud escreveu "das Unewusste", cuja tradução correta seria "inconsciente".

A maioria dos especialistas em tradução de textos em alemão ganha muito mais dinheiro com versões técnicas - e não precisa se arriscar pelo difícil terreno da literatura. Um dos maiores tradutores do país, o escritor Modesto Carone, foi na direção contrária e especializou-se na obra de Franz Kafka. As armadilhas do checo de língua alemã vêm surpreendendo Carone há muitos anos, no correr das três horas de dedicação diária ao autor de O Processo. "Kafka disparava palavras com precisão", diz o tradutor brasileiro. "É necessário um corpo-a-corpo com o original." Carone vai direto ao alemão, ao contrário dos outros tradutores de Kafka no Brasil, que partiram do francês ou mesmo do espanhol. "Teve gente que, em O Castelo, traduziu 'bando de gralhas' por 'enxame de urubus'", diz Carone, para quem o senso de humor de Kafka perdeu muito nas traduções descuidadas.

Além de difícil, a tarefa do tradutor é mal remunerada. Uma página muito bem paga não passa dos R$ 25. A média fica entre R$ 12 e R$ 15, mas muito tradutor recebe apenas R$ 8 por lauda. Não chega a ser espetacular, mas já há quem viva disso. O escritor Paulo Henriques Britto é um deles. Leciona, inclusive, sobre o metiê, na PUC do Rio. "Eu comecei do nada, nos anos 70", diz. "Hoje, os erros do tradutor principiante podem ser cometidos na sala de aula." Britto pratica uma tradução de altas esferas. Ele acabou de verter para o português os belos versos da escritora americana Elizabeth Bishop (Poemas do Brasil). No trabalho, aventurou-se por soluções engenhosas e saídas ousadas. Ao precisar de uma rima, criou, no poema "O Ladrão da Babilônia", um morro que não existe na paisagem carioca, o do Noronha. "Minha convivência com o texto de Bishop é muito antiga, não vejo problema nisso", diz o escritor. "Traduzir também é uma maneira de escrever", completa. De fato, o conjunto da tradução desse volume de Elizabeth Bishop é extraordinário, mas traz à lembrança um velho jogo de palavras em italiano: "Tradutore traditore", "tradutor traidor". No caso de Paulo Henriques Britto, a invenção geográfica conseguiu inteirar-se perfeitamente no poema.

Para o poeta Augusto de Campos, existem duas correntes de tradução, ambas envolvidas com graus diferentes de "traição" ao original. "A primeira não se preocupa com a parte formal", diz. "A tradução é quase literal, transforma-se num simulacro malfeito do que poderia ser um bom poema." A segunda corrente, envolvida com as questões formais, requer uma liberdade maior, daí a "traição". "Ela reconstitui o momento belo, o clima, as paixões, a rebeldia poética contida no original." Pequenas traições modernizadoras podem emprestar vida nova a belos poemas - e as traduções que o próprio Campos perpetuou dos poetas provençais do século 13, como Arnaut Daniel, são uma demonstração eloqüente de como traduzir também pode ser uma arte.

Fonte: Revista Época de 13/12/2010 http://glo.bo/PnQ95c